Investigação forense on-chain desmonta a narrativa de 'takeover de 51%' da Qubic contra a Monero
Um estudo (atualizado para v4) reconstrói forensicamente a campanha de mineração de 2025 em que a Qubic afirmou ter executado um 'ataque de 51%' e mineração egoísta contra a Monero. Cruzando medições de nós da rede Monero, observações do pool da Qubic, artefatos compartilhados pela comunidade e chaves de visualização (view keys) divulgadas, os autores atribuem blocos e identificam janelas de retenção, concluindo que não houve controle majoritário sustentado nem vantagem de recompensa sobre a mineração honesta.
Em 2025, a rede de blockchain Qubic anunciou publicamente uma campanha de mineração contra a Monero, apresentando-a como uma tomada de 51% da rede e uma demonstração de 'selfish mining' (mineração egoísta) — uma estratégia em que um minerador com poder de hash suficiente retém blocos minerados para desperdiçar o trabalho dos concorrentes honestos e, em tese, obter vantagem de recompensa desproporcional ao seu poder computacional. Como a Monero é uma moeda com foco em privacidade, verificar essas alegações de fora é incomum: normalmente não dá para atribuir blocos a um pool específico nem observar diretamente decisões de retenção privada de blocos, já que o protocolo foi desenhado para ocultar exatamente esse tipo de metadado.
O que torna este trabalho um exercício de forense digital aplicada a blockchain é a metodologia de atribuição: os autores combinam medições próprias de nós da rede Monero (para capturar órfãos e reorganizações de cadeia em tempo real), observações públicas do pool operado pela Qubic, artefatos e logs compartilhados pela comunidade de usuários e pesquisadores, e — o dado mais sensível — chaves de visualização (view keys) que participantes divulgaram voluntariamente, permitindo decifrar transações específicas e correlacionar blocos a origens. É uma cadeia de evidências heterogêneas, tipicamente incompleta e de proveniência variada, que precisa ser reconciliada para reconstruir 'quem fez o quê e quando' — o mesmo tipo de raciocínio de uma perícia de intrusão, aplicado ao domínio de consenso de blockchain.
Os resultados contradizem a narrativa divulgada pela própria Qubic: em vez de controle majoritário sustentado, os pesquisadores observam picos de órfãos e reorganizações mais profundas que o normal, mas não um domínio contínuo da cadeia. Além disso, a Qubic não seguiu uma estratégia única e otimizada de mineração egoísta — ela alternou entre mineração egoísta clássica e decisões mais defensivas de liberação de blocos, sugerindo ajuste tático em resposta ao monitoramento da comunidade e às contramedidas da própria rede Monero. Um achado central é que, ao longo de toda a campanha, a Qubic não obteve vantagem de recompensa sobre a mineração honesta — ou seja, do ponto de vista puramente econômico, o ataque não 'compensou'.
Para quem acompanha investigação de incidentes em criptoativos, o caso é relevante por dois motivos práticos: primeiro, demonstra um método replicável de atribuição forense em redes com privacidade forte, útil como referência para investigar futuras campanhas de manipulação de consenso; segundo, evidencia que ataques de mineração podem ter motivação predominantemente disruptiva ou reputacional (afetar a confiança na rede-alvo) em vez de puramente financeira, o que muda o cálculo de risco e a resposta apropriada para operadores e exchanges que dependem da integridade da cadeia Monero.